“Luís Castro tem um penteado normal. E isso conta... muito”
Miguel Sousa Tavares, in A Bola, 11 de março de 2014
Eu já tinha ouvido de relance na televisão – entre a jocosidade da “confiança cega” – um comentador a atribuir o fracasso do Paulo Fonseca no Futebol Clube do Porto ao penteado com gel. Ou melhor: ao “cabelo espetado”. Tomei como uma brincadeira, mas na terça-feira Miguel Sousa Tavares volta ao assunto n'A Bola falando no “penteado normal” do novo treinador do Porto (Luís Castro), referindo ainda como é bom o novo técnico vestir-se com “sobriedade e elegância”.
Ora, independentemente do que eu acho do trabalho do Paulo Fonseca, é um ultraje associar o trabalho ao penteado. Até porque me parece mais apresentável que o dos técnicos dos rivais direitos: Leonardo Jardim nem tem cabelo e Jorge Jesus é aquele misto de Mick Jagger (se pintasse o cabelo de branco-loiro) e Simone de Oliveira (se pintasse o cabelo de branco-loiro).
Eu sei que esta parece uma questão menor, mas não é. E escrevo este post pela defesa dos cabelos espetados deste mundo (Ellen Degeneres, não precisa de agradecer). Eu uso cabelo espetado e utilizo gel, que (passo a publicidade) é da L'oreal. Porque eu mereço.
Confesso que na minha vida profissional, não raras vezes dou com os entrevistados a olharem para o meu cabelo e sinto que é feito um certo juízo só por ter o cabelo em pé. Acontece mais com políticos e com a "velha-guarda". Julgo que, às vezes, uns se esticam só por eu ter o “cabelo espetado” e sentem-se no direito de fazerem comentários. De vez em quando lá sai a pergunta: “É estagiário?” Ou então: “É novo não é? Que idade é que tem?” Ou pior: “Têm aí um cabelo todo...”.
Houve até um ministro de um Governo de coligação (não digo qual) que uma vez se sentiu no direito de fazer comentários impróprios sobre o meu cabelo durante uma entrevista. Ainda que na brincadeira, o facto do cabelo ter gel deu-lhe esse poder (esta é uma história deliciosa de mais para ser queimada neste texto e, por isso, vou deixá-la para outra altura).
Uma vez um chefe disse-me que eu era melhor jornalista que um camarada meu, mas que o outro camarada tinha um ar mais político. Supus que era por causa do cabelo, uma vez que nesse dia até estava enpinguimzado (vem do verbo inventado
empinguar, que significa “
tornar pinguim”). Outra vez, um amigo meu que usava cabelo espetado foi trabalhar para um gabinete ministerial e a primeira vez que fui almoçar com ele depois disso trazia o cabelo sequinho, penteado para o lado, igual ao dos outros pinguins. Quando dei aulas, cheguei a ouvir de um aluno: “Nunca tive um professor com cabelo espetado”. Este meu drama (e do Paulo Fonseca) está assim entre o bullying do básico e uma praxe da COPA da Lusófona.
Deixo aqui um aviso os senhores que adoram os “cabelos à CDS” (ainda que tenham muito aquilo de que o Ronaldo fala no anúncio da Linic, a ole[o]sidade): Nós, os do cabelo espetado, não vos vamos render aos vossos cânones. A competência não depende, nem nunca dependerá, do cabelo. Se assim fosse, coitado do Rui Massena. Se assim fosse, o Einestein não teria sido o Einstein. E o Cristiano Ronaldo não era o Cristiano Ronaldo.
Não sei em que medida o cabelo do Paulo Fonseca contribuiu para a sua saída do FC Porto. Acho que a culpa foi mais do gel do Moutinho e do James terem saído dos cacifos do balneário. Porém, se houve alguma parte de responsabilidade do cabelo nisso, demonstro desde já o total repúdio e solidariedade para com o Paulo Fonseca. Acho até que se podiam criar os direitos da minoria do cabelo espetado, não conheço nenhum chefe de Estado no mundo com o cabelo espetado. Mas há esperança. Este ano, nós, os(as) do cabelo com gel, já tivemos uma representante a apresentar os óscares. Em breve, dominaremos o mundo. Porque, independentemente do cabelo, nós merecemos.