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sexta-feira, 28 de março de 2014

Um tigre de sapatos vermelhos

Há uns dois anos ia no metro de Lisboa quando no meio dos rostos abatidos e desiludidos o meu olhar esbarrou no sorriso enorme de uma rapariga. É muito raro ver alguém sorrir assim no metro sem razão aparente. Por isso, captou a minha atenção.



Quando olhei melhor reparei que era simplesmente a Rita Redshoes e que estava abraçada ao Paulo Furtado aka The Legendary Tigerman.

Mas a história não acaba aqui. Esta semana ambos lançaram novas músicas a solo. Ele um disco inteiro, ela apenas uma amostra do álbum que só sai em Maio. Depois de "Femina" as expectativas dos fãs de The Legendary Tigerman eram elevadas. E o mesmo com os fãs de Rita Redshoes em relação ao segundo trabalho dela por conta própria.

Não sendo uma especialista na matéria, mas metendo um pouco a colher no campo da crítica musical, parece-me que a relação entre ambos contagiou a música que fazem. Se ouvirmos o primeiro single de "True" encontramos traços musicais de Rita Redshoes. Se ouvirmos o avanço de "Life Is a Second of Love" encontramos influências de The Legendary Tigerman. Ora oiçam lá e tirem as vossas próprias conclusões:

Rita Redshoes - Broken Bond

The Legendary Tigerman - Do Come Home


P.S.: Já agora fica aqui uma recordação da "Estrada de Palha" e mais um exemplo da proficuidade deste romance entre os dois cantores/compositores.


segunda-feira, 17 de março de 2014

Poluição de todos nós



A poluição é um daqueles problemas de que grande parte das pessoas fala como se não tivesse nada que ver com o assunto quando na realidade depende muito de cada um de nós e afecta-nos a todos. 

                                           Foto: José Lopes/etcetal.pegada.net

Uma prova concreta disso está no avanço do mar que ficou bem visível este inverno em vários pontos da costa portuguesa. Há muito que se falava dos icebergues que estão a derreter, das alterações climáticas, da erosão costeira e de efeitos que tais da poluição, mas tudo isto era visto em geral como uma preocupação restrita aos ambientalistas, como se nunca se viesse a concretizar.

Muitos houve para quem as vozes contra as construções junto ao mar eram apenas vozes de anticapitalistas que só sabiam ser do contra, prontos a vociferar contra negócios milionários que violavam os planos de ordenamento do território - e isto nos casos em que os havia a sério.

O resultado está finalmente à vista em Portugal de forma inequívoca e ainda esta primavera vão começar a ser demolidas as construções em risco. Só este ano o Governo conta que avance a demolição de 835 instalações ilegais. Como as autarquias as deixaram estar de pé até agora é que eu não sei. Ou melhor, desconfio. Mas isso são contas de outro rosário.

Voltando à poluição, Pequim e Paris são apenas dois exemplos a ter em conta. Na capital francesa os elevados níveis de poluição no final da semana passada levaram as autoridades a incentivar a população a deixar ficar em casa os automóveis, tornando os transportes públicos gratuitos durante o fim de semana. Agora foi imposta a circulação alternada de viaturas em Paris.

                                   Foto: Patrick Kovarik/AFP/Getty Images/theguardian.com

No final do mês passado, a cidade de Pequim esteve em estado de emergência por causa dos elevados níveis de poluição e a população mais sensível (crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios) foram aconselhados a não sair de casa. Quase 150 empresas industriais de Pequim limitaram ou suspenderam a produção, obedecendo às medidas de emergência adotadas pelo município para reduzir a poluição.

Uma boa notícia é que o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, afirmou na semana passada que o seu Governo vai lutar contra o problema, apesar de "a guerra contra a poluição" ser "uma batalha difícil" e que "vai demorar tempo" a vencer. Há medidas concretas no horizonte, o que pelo menos já é um bom começo.

sexta-feira, 14 de março de 2014

L'OREAL, porque eu e o Paulo Fonseca merecemos
















“Luís Castro tem um penteado normal. E isso conta... muito”
Miguel Sousa Tavares, in A Bola, 11 de março de 2014

Eu já tinha ouvido de relance na televisão – entre a jocosidade da “confiança cega” – um comentador a atribuir o fracasso do Paulo Fonseca no Futebol Clube do Porto ao penteado com gel. Ou melhor: ao “cabelo espetado”. Tomei como uma brincadeira, mas na terça-feira Miguel Sousa Tavares volta ao assunto n'A Bola falando no “penteado normal” do novo treinador do Porto (Luís Castro), referindo ainda como é bom o novo técnico vestir-se com “sobriedade e elegância”.

Ora, independentemente do que eu acho do trabalho do Paulo Fonseca, é um ultraje associar o trabalho ao penteado. Até porque me parece mais apresentável que o dos técnicos dos rivais direitos: Leonardo Jardim nem tem cabelo e Jorge Jesus é aquele misto de Mick Jagger (se pintasse o cabelo de branco-loiro) e Simone de Oliveira (se  pintasse o cabelo de branco-loiro).















Eu sei que esta parece uma questão menor, mas não é. E escrevo este post pela defesa dos cabelos espetados deste mundo (Ellen Degeneres, não precisa de agradecer). Eu uso cabelo espetado e utilizo gel, que (passo a publicidade) é da L'oreal. Porque eu mereço.

Confesso que na minha vida profissional, não raras vezes dou com os entrevistados a olharem para o meu cabelo e sinto que é feito um certo juízo só por ter o cabelo em pé. Acontece mais com políticos e com a "velha-guarda". Julgo que, às vezes, uns se esticam só por eu ter o “cabelo espetado” e sentem-se no direito de fazerem comentários. De vez em quando lá sai a pergunta: “É estagiário?” Ou então: “É novo não é? Que idade é que tem?” Ou pior: “Têm aí um cabelo todo...”.

Houve até um  ministro de um Governo de coligação (não digo qual) que uma vez se sentiu no direito de fazer comentários impróprios sobre o meu cabelo durante uma entrevista. Ainda que na brincadeira, o facto do cabelo ter gel deu-lhe esse poder (esta é uma história deliciosa de mais para ser queimada neste texto e, por isso, vou deixá-la para outra altura).

Uma vez um chefe disse-me que eu era melhor jornalista que um camarada meu, mas que o outro camarada tinha um ar mais político. Supus que era por causa do cabelo, uma vez que nesse dia até estava enpinguimzado (vem do verbo inventado empinguar, que significa “tornar pinguim”). Outra vez, um amigo meu que usava cabelo espetado foi trabalhar para um gabinete ministerial e a primeira vez que fui almoçar com ele depois disso  trazia o cabelo sequinho, penteado para o lado, igual ao dos outros pinguins. Quando dei aulas, cheguei a ouvir de um aluno: “Nunca tive um professor com cabelo espetado”. Este meu drama (e do Paulo Fonseca) está assim entre o bullying do básico e uma praxe da COPA da Lusófona.

Deixo aqui um aviso os senhores que adoram os “cabelos à CDS” (ainda que tenham muito aquilo de que o Ronaldo fala no anúncio da Linic, a ole[o]sidade): Nós, os do cabelo espetado, não vos vamos render aos vossos cânones. A competência não depende, nem nunca dependerá, do cabelo. Se assim fosse, coitado do Rui Massena. Se assim fosse, o  Einestein não teria sido o Einstein. E o Cristiano Ronaldo não era o Cristiano Ronaldo.

Não sei em que medida o cabelo do Paulo Fonseca contribuiu para a sua saída do FC Porto. Acho que a culpa foi mais do gel do Moutinho e do James terem saído dos cacifos do balneário. Porém, se houve alguma parte de responsabilidade do cabelo nisso, demonstro desde já o total repúdio e solidariedade para com o Paulo Fonseca. Acho até que se podiam criar os direitos da minoria do cabelo espetado, não conheço nenhum chefe de Estado no mundo com o cabelo espetado. Mas há esperança.  Este ano, nós, os(as) do cabelo com gel, já tivemos uma representante a apresentar os óscares. Em breve, dominaremos o mundo. Porque, independentemente do cabelo, nós merecemos.

domingo, 2 de março de 2014

Dez coisas que talvez vos tenham escapado nos últimos tempos

Pessoas, passou-se isto assim-assim e ao longo dos últimos tempos inconsegui escrever para este espaço, o que até foi algo frustracional (como diria aquela senhora que gosta de pedir de forma-mais-ou-menos-histérica “façam favor de evacuar as galerias”). Agora, para celebrar a chegada de um novo mês, e pensando nos acontecimentos que marcaram o primeiro bimestre do ano, trago-vos uma lista de dez coisas de que talvez não se tenham dado conta [não recomendável a quem, a exemplo do venerável Sheldon Cooper, não compreenda sarcarmo]. A saber:
















1. Houve dias de sol e sem alertas meteorológicos (cerca de dois)

2. Ainda estão vivas algumas velhas-glórias-do-Benfica-dos-anos-60 (expressão algo redundante)

3. Existem estudantes universitários, com um QI dentro da média, e que conseguem ter opiniões não-radicalizadas sobre a praxe

4. Em Janeiro, Vladimir Putin era um putativo Nobel da Paz (pela ‘intervenção’ na crise síria)

5. Em alguns dias dos últimos dois meses, Miley Cyrus andou vestida e não se envolveu em polémicas

6. Os indicadores pão, habitação, saúde e educação ainda não foram informados da retoma económica e de baixa do desemprego

7. Phillip Seymour Hoffmann não tinha 27 anos quando morreu de overdose

8. Ainda existem vídeos virais com gatos – embora não tão engraçados como os das flash interview de certos treinadores portugueses (e também do Paulo Fonseca)

9. Cavaco Silva é “presidente da república” e exerce uma “magistratura de influência”

10. Há mais do que um militante do PSD a achar boa ideia o regresso de Miguel Relvas [esta carece de confirmação]

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Filhos únicos




 
O tema dos filhos únicos é sensível, mas deve ser alvo de atenção numa altura em que a taxa de natalidade é baixa e em que há cada vez mais filhos únicos.

Esta semana um artigo do jornal Público chamava a atenção para o problema com o título “Quanto pode custar ao país uma geração de filhos únicos?”. O texto acabava por aprofundar o tema da superprotecção aos filhos, que considero não ser um exclusivo dos filhos únicos (sim, sou filha única).

Conheço benjamins que são muito mais protegidos e até mimados do que os filhos únicos. No fundo, tudo depende da educação – e, diga-se a verdade, por vezes depende da maior predilecção dos pais por este filho ou por aquele em detrimento dos outros.

Felizmente não me revejo no retrato do filho único que é traçado no artigo. Se calhar porque cresci a ouvir muitas vezes a palavra “não”, que os pais hoje em dia têm dificuldade em pronunciar. Se calhar porque ainda sou da geração de brincar na rua com os vizinhos, de brincar com os primos, de brincar com os amigos – e de partilhar tudo com todos. E de chafurdar na terra a inventar bolos de chocolate, ficar com as unhas cheias de terra, e ainda ouvir o belo do ralhete e até a palmada da mãe quando tinha o infeliz tique de roer as unhas…

É verdade que a realidade hoje é outra para a maioria das crianças, tal como lembra o artigo. Mas também é verdade que muitos pais não sabem lidar com as birras das crianças, e preferem satisfazer as suas exigências para que se calem rapidamente, em vez de as contrariar. Há sempre aquela máxima: se a birra não inclui lágrimas, é porque é mesmo chantagem.

Concordo com o argumento que ser pai ou mãe hoje em dia não é a mesma coisa do que no tempo em que eu era criança. Agora há muita angústia em torno da parentalidade, do que se espera da figura do progenitor, do sacrifício pessoal que se exige aos pais num mundo em que a carreira profissional é cada vez mais rodeada de pressão.

Alguns destes problemas talvez ficassem resolvidos com uma política cabal de protecção à natalidade, mas também à maternidade e paternidade. A substituição das gerações não tem sido preocupação dos Governos, sempre preocupados apenas com problemas de curto prazo. Também não tem sido preocupação da sociedade em geral, porque mesmo no tempo da ilusória prosperidade não se exigiram este tipo de políticas semelhantes às dos países nórdicos.
Um dia havemos de pagar o preço por tudo isto e nessa altura a expressão “sustentabilidade da Segurança Social” vai deixar de fazer sentido.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Chupistas nunca mais



Cheguei à conclusão que há chupistas por todo o lado. E os chupistas são bem piores que os borlistas ou os cravas (por estes últimos, confesso,  não nutro especial simpatia). No final de janeiro li um texto do Miguel Esteves Cardoso (MEC), intitulado "Borlas Nunca Mais" (por acaso li-o à borla na Internet), do qual discordo porque o MEC confundiu borlistas com cravas. Não são bem a mesma coisa.

Como o MEC é o MEC vou tentar equilibrar um bocadinho as coisas e ganhar aqui alguma vantagem moral, já que pela escrita não vou lá. Vou roçar a demagogia, mas, pelo menos, é com a verdade. Se somar as horas todas que fiz em peditórios (naturalmente, de borla) para a Liga Portuguesa Contra o Cancro e as horas que estive, em pé, à porta de um supermercado a recolher alimentos para o Banco Alimentar sou capaz de superar as horas que o MEC foi à borla falar à televisão, a um programa do Herman ou qualquer coisa parecida. Isso faz de mim um escravo moderno? Penso que não.

O MEC estava muito ofendido porque, naturalmente, recebe muitos convites (que não considera convites, mas uma espécie de cantos da sereia esclavagistas) de pessoas que o admiram, que querem que ele faça parte de um projeto. "Borlistas de merda!", pensará ele. E continuará, imagino eu: "Eles gostam de mim, mas que se lixe, não sou pai de ninguém. Não sou escravo. Não vão ser correspondidos, por isso é que o Amor é Fodido".

O MEC é um ídolo para gerações. Da minha, da antes da minha e da antes dessa. Se eu um dia, hipoteticamente falando, lançasse um livro, pensaria no Miguel para o apresentar. Porque o admiro.  E não teria dinheiro para lhe pagar. Ia-lhe pedir que cometesse o sacrifício de perder 45 minutos da vida dele com um "projeto" meu e automaticamente tornava-me num escravocrata. Por outro lado, se um Trump, um Amorim ou um Belmiro oferecesse uns bons milhares de euros para o MEC ir uma apresentação, já seriam bons-samaritanos, gente justa e honesta, que contrasta com um palhaço borlista como eu.

MEC, quando lhe fizerem esses "convites" esclavagistas, há duas palavras que costumam resultar: "Não, obrigado". Não é preciso menorizar as pessoas que o abordaram - que antes disso leram as suas crónicas, compraram os seus livros - e que apenas fizeram uma pergunta. Perguntar não ofende. Já pensou que eles não têm a culpa de não ter nascido génios, de não terem um amigo na televisão ou de não serem de uma família com consoantes duplas e ípsilons no lugar dos i's?

Se eu fosse o MEC, tanta borla que eu dava. Sou o Rui, nasci em Salvaterra, e escrevo textos medíocres como este. Quem me dera ter mais convites, quem me dera ajudar mais. Mas, infelizmente, não nasci génio.  A mim até me convidam para me dar mais dinheiro. A última vez convidaram-me para ganhar seis vezes mais. Fiquei sentado na mesma cadeira, a fazer o que gosto: ser jornalista. Um dia, se tiver sorte (e mérito), talvez me estejam sempre a ligar a pedir borlas por me admirarem. E sabe que mais MEC? Eu, se puder, direi que sim. Se não puder, direi apenas: "Não, obrigado".

Tem graça  porque eu, quando dou uma borla a alguém, sem receber nada em troca, não me sinto nenhuma Madre Teresa, nenhum Peter Parker nem sequer um Di Natale. Mas grito, para mim mesmo, em silêncio, qualquer coisa do género: "Como é linda a puta da vida".

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Ru(i)nning Project I: Hola, nuestros hermanos

The difficult is not to reach the end
The difficult is to start





Objetivo: Moscovo. Comecei a correr na segunda metade de 2013, de forma irregular. Nuns meses mais intenso, noutros menos. Tenho um aparelho que faz as contas por mim e que me diz que, até ao momento, já percorri 324,64km (dos quais 85 km no último mês – mais de ¼ do que fiz em todos os anteriores).

Escrevo este post para dizer que, segundo o Google Maps, cheguei há poucos dias a Espanha, uma vez que não segui o percurso mais fácil, por Badajoz (para resistir aos caramelos), mas passei a fronteira via Vilar Formoso. O grande objetivo para 2014 é percorrer, até ao final do ano, um total de 1000 quilómetros. Se conseguir, chegarei ao acumulado de 1248 km, o que significa que ficarei a cerca de 400 quilómetros de Paris e já terei passado por Bordéus.



Já terei mais de 30 anos quando chegar à Russia, mas o objetivo é mesmo chegar às torres do Kremlin, em Moscovo (mais de 4400 km de distância). É importante que se perceba que, no Ruinning, o percurso pela Europa é fictício. Corro, basicamente, sempre nos mesmos sítios: na ciclovia que começa nos tibunais cíveis em Lisboa e vai até Monsanto e na pista da marginal, entre o Cais de Sodré e Belém. Mas é engraçado medir as distâncias das corridas e ver a que avanços correspondem no mapa da Europa. É uma espécie de auto-motivação. Desafio todos a fazerem o mesmo, basta descarregarem uma aplicação de corrida gratuita e depois fazer as contas no Google Maps.

No Ruinning não tenho nenhum objetivo de apoiar a seleção (embora conte “chegar” a Moscovo antes do Mundial de 2018), nem de dar um euro por cada quilómetro percorrido para uma instituição de caridade (não tenho sponsor para isso). É apenas um desafio a mim mesmo, numa modalidade que chamo o Ruinninig (Epistemologicamente falando: Rui + running).














Estou neste momento a passar por Ciudad Rodrigo, na província de Salamanca. Diz o site do turismo espanhol que a cidade tem um castelo e uma catedral muito bonitos. Mais logo, na minha corrida noturna, quando sentir aquela brisa do Tejo, vou fechar os olhos e tentar imaginar que corro por Ciudad Rodrigo. Pensando bem, não é lá grande troca.

Lá para março, quando chegar a Salamanca, colocarei aqui outro post. Farei também questão de contar as peripécias desta minha aventura, sempre que se justifique. Até porque, naturalmente, vou fazendo provas oficiais pelo caminho. Ready, Set, Go!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Amanhã (hoje) há Óscares

Porque ainda não vimos grande parte dos filmes que amanhã podem ser nomeados, vamos às futilidades: nós por aqui apreciávamos que os Óscares tivessem uma categoria de Melhor Beijo, à la MTV. Em vez pôr o James Franco e a Anne Hathaway a apresentar para conquistar a geração 'reality-MTV', deviam importar categorias. E escolher outras canções.


Nós somos fãs dos clássicos, como podem ver pela montagem (Oooooo it takes a montage). E vocês?

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

20 coisas que caracterizam um jornalista português

Confesso que não gosto muito de listas. Nem de listas de compras, nem de listas históricas (veja-se o Index, por exemplo, e valha-nos a valentia de Schindler e Aristides para não ser tudo mau), nem de listas de riqueza (sorry Forbes), nem de listas de despedimentos. Há uns tempos, porém, aprendi a gostar de listas mais inofensivas (o melhor jogador, o melhor golo, as melhores gafes de Bush, as mulheres do Tiger Woods, o país com maior índice de felicidade, etc). Há ainda as listas do Buzzfeed, que até já inspiraram um post anterior.

O Buzzfeed é tão inspirador que estou a profissionalizar-me em listas deste género e agora até já ando a roubar gifs do Tumblr só para dar um maior colorido estético à enumeração. O tema que vos trago hoje é relativo à profissão dos seis autores do blog: todos jornalistas. Depois da NewCastic eleger as "30 coisas que "stressam" os jornalistas" e do inevitável Buzzfeed ter eleito as "23 coisas que os jornalistas adoram" (tradução livre) e as "22 coisas que os jornalistas sabem ser verdade" (tradução livre) decidi avançar para uma nova lista: "As 20 coisas que caracterizam um jornalista português". É, basicamente, uma "tuga version" das listas anteriores, com (muitos) toques de portugalidade. A lista não pretende ofender ninguém, nem ser uma verdade absoluta (até porque excluiu importantes virtudes e qualidades profissionais, éticas e deontológicas dos jornalistas portugueses), mas se alguém a puser nas mãos do grupo dos jornalistas do Facebook tem tudo para ser mais incendiária que o Index (repararam na piada assente no binómio incendiária/livros na fogueira?).

Enfim, é por os meus textos serem tão chatos que prefiro oferecer-vos listas. Aqui estão as 20 coisas que definem um jornalista português:

1. Odeia transcrever entrevistas



2. Diz várias asneiras na redação



3. Já se sentiu desiludido com a classe após ler  posts do grupo "Jornalistas" no Facebook



4. Já foi, pelo menos uma vez,
a um destes locais





5. Já teve Termo de Identidade e Residência




6. Esquece a imparcialidade quando
entra em campo a Selecção Nacional



7. É viciado em café




8. Odeia que repórteres de
programas
de entretenimento
sejam confundidos com jornalistas




9. Irrita-se com comentários
feitos pelos leitores online




10. Já deu pelo menos uma notícia
sobre o processo Casa Pia

















11. Tem um carinho especial,
quase paternal, em relação a Timor




12. Gosta de ver a série 'Newsroom'




13. Ri-se de algumas atitudes dos
camaradas de profissão




14. Já se viu obrigado a levantar a voz
para responder a um assessor ou a um
político desagradado com uma notícia




15. Já se sentiu revoltado por ser
obrigado a participar numa conferência
de imprensa sem direito a perguntas




16. Raramente utiliza a carteira
profissional






















(A não ser que trabalhe na AR...)

17. Já perdeu um texto porque
o Milenium bloqueou






















18. Raramente leva os estagiários a sério.


















19. Já pensou pelo menos uma vez:

Jornalista de imprensa: "Porque é que os jornalistas da TV se metem à nossa frente como se fôssemos invisíveis?"


Jornalista de rádio: Porque é que os tipos da TV passam à nossa frente e os de imprensa nos empurram pelas costas?  

 

Jornalista de televisão: "Porque é que os tipos da rádio não saem dos nossos planos e os de imprensa têm de nos estar aqui a chatear se só vão escrever isto para amanhã?"













20. Irrita-se com os assessores
que abusivamente os tratam
como se fosse
m amigos















 


Smile: you’ve got mail!

Abrir a caixa de correio (a física, à moda antiga, não a virtual) normalmente não traz nada de bom. Longe vão os tempos em que nos vinham parar a casa postais e cartas escritas à mão, cheias de histórias e ternura, ou publicidades engraçadas com prendinhas embrulhadas. Agora, abre-se a caixa e normalmente encontram-se… contas. Até a La Redoute já se rendeu à publicidade online e deixou de distribuir o seu mini-catálogo em papel por esse Portugal fora.

Mas eis que agora todos podemos novamente voltar a receber prendinhas pelo correio (desde que paguemos a módica quantia de 28,5 euros por mês, mas isso agora não interessa nada). Tudo graças a uma ideia – giríssima, quanto a mim, que tenho inveja de não ter sido eu a lembrar-me de um negócio destes – nascida no Reino Unido. A empresa “Not Another Bill” propõe-se a deixar, todos os meses, uma prendinha na caixa do correio dos seus clientes. Mas não uma prendinha qualquer, só coisas engraçadas, fofas e diferentes, saídas da imaginação de novas marcas, designers e artistas. O objetivo é mesmo esse: divulgar novos projetos, ainda pouco conhecidos do grande público. Tanto que todas as prendinhas vêm acompanhadas por uma carta com informações sobre a marca e autor do artigo.

No site há fotografias de algumas das prendas já enviadas, todas fantásticas. Apetecia-me falar de várias (e, principalmente, recebê-las cá em casa), mas o meu sentido patriótico obriga-me a destacar uma com cores portuguesas: um pincel de fazer a barba, pintado à mão e comercializado a partir de Londres, através de uma loja online chamada “Saudade”. Mais uma prova de que, não interessa onde vamos, há-de lá estar sempre um português.


domingo, 12 de janeiro de 2014

É tudo uma questão de cor


  
"Floresce com confiança e calor mágico que intriga o olhar e desperta a imaginação. É um roxo expressivo, criativo e abrangente que conquista com o seu charme sedutor. A harmonia cativante dos tons de fúcsia, roxo e rosa. Emana grande alegria, amor e saúde."

O quê as imagens nada têm a ver com as palavras? À primeira vista parece que não, é certo. Mas vamos aos detalhes: a Pantone (a mais reconhecida autoridade em matéria de cor) definiu com estas palavras que 2014 vai ser o ano da Orquídea Radiante (uma espécie de roxo e rosa) e vai daí o nosso vice-primeiro ministro não quis ficar atrás e no lançamento do seu relógio de adeus à troika (que até parece estar fora de horas), a 15 de dezembro, decidiu já dar o tom para o novo ano.

Talvez esperançoso que o adeus à troika traga alegria, amor e saúde aos portugueses ou apenas porque é fã desta cor, Paulo Portas não só decidiu usar uma camisola nestes tons, como o próprio fundo da contagem decrescente não foge à paleta definida para 2014.

As vedetas de Hollywood já começaram a imitar o nosso vice-primeiro e nós vamos começar a fazer o mesmo, certo? Toca a tirar do armário todos os roxos, fúcsias, rosas e orquídeas radiantes.



















Se ainda precisam de mais argumentos, esta é a cor favorita de Michelle Obama.





sábado, 4 de janeiro de 2014

Personagem do ano: um princípio

Caros concidadãos,
escrevo-vos hoje sobre a necessidade de corrigir uma injustiça histórica: é urgente criar e disseminar a eleição da personagem de ficção do ano.
Mais do que heróis e vilões de carne e osso, do que precisamos é de figuras ficcionais que nos inspirem, nos façam sonhar, nos coloquem questões ou nos despertem o mais profundo asco. Criações que sejam demasiados boas e (in)verosímeis para ficarem presas apenas na gaveta da ficção.
Tomem 2013 como exemplo. Figura nacional? Daniel, o narrador e figura maior de Índice Médio de Felicidade, de David Machado. Quem melhor pode representar o Portugal de 2013 do que um lírico desempregado, sem rumo nem teto, à deriva ao mesmo tempo que tenta colar os cacos das vidas em volta?
Figura internacional? Walter White, o pai de família canceroso que se transformou num senhor do crime e levou à fama mundial a brutalissima série Breaking Bad. Sim, a Time também o elegeu como personagem ficcional do ano (ok, a ideia talvez não seja assim tão original). A impressionante mudança do pacato professor de química tornado um traficante de metanfetaminas sem escrúpulos tem leitura mundial. Não importa se Walter desafiava os limites por amor à família ou para deixar uma narsísica prova de vida: a sua história diz muito sobre os primatas que somos.
Sim, as personagens principais de Índice Médio de Felicidade e de Breaking Bad são as minhas figuras do ano (ou não acham que as outras, de Paulo Portas a Rui Moreira ou do Papa Francisco a Vladimir Putin, são também produtos de ficção?). Se estiverem comigo, em 2014 podemos votá-las todos juntos.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

E “Pimba” o Bruno arrasou o Quimbé


O Pimba está na moda. Na verdade, sempre esteve. Basta recuar 15 anos para nos lembrarmos dos expositores giratórios com cassetes nos restaurantes, seguros por pequenos cadeados e onde reinava a música popular. E os bigodes fartos.

Desde então o Pimba nunca desapareceu das vidas dos  portugueses. Há um denominador comum nos artistas mais contratados para festas fora dos grandes centros urbanos, nos tops nacionais de música, nas atuações em programas de televisão e, vá, nas rádios locais: a "música pimba" – nome dado pelo Emanuel, que agora é mais Kizomba.

As elites nunca foram conquistadas, mas isso acabou. Na despedida de Lisboa do espectáculo “Deixem o Pimba em Paz” (no dia 19 de novembro) brotaram os intelectuais, os pseudos e equiparados. Falemos então do espectáculo musical de Bruno Nogueira e Manuela Azevedo no Tivoli BBVA (naming mais-que-Pimba). O conceito pensado pelo Bruno é basicamente dar novas roupagens (jazz e pop) a músicas pimba já existentes, o que – tendo em conta o toque de midas de Bruno e a voz de Manela – tinha tudo para dar certo.

O espetáculo arrancou mal, apesar do pequeno número de stand-up de Bruno Nogueira. Evitando aqui spoilers, diria que as primeiras músicas do show assemelhavam-se a ver um espanhol a cantar fado no filme do Saura, misturado com qualquer coisa desconexa parecida com Kusturica e a No Smoking Orchestra. Às primeiras três músicas o que me ocorreu foi: "Epá, já vi o Quimbé e o Rubim fazerem melhor que isto". Passo a explicar: o Pimba também está na moda na malta da “noite” (É vdd ixto, meus putos. Lolaaada. XD).

Duas semanas antes tinha tido a oportunidade de vislumbrar uma festa “Pimba Chic” numa discoteca main stream. O Quimbé (eterno apresentador da Sombra da Bananeira, que também se chama Nuno Eiró – sim, eu acredito que eles são a mesma pessoa) e o Rubim (namorado da Mónica Sofia, a primeira mulher a despir-se para a Playboy portuguesa) auto-intitulavam-se os P*ta da Loucura e faziam um espectáculo de DJ e VJ (isto existe?), além de pequenos aprontos teatrais com cabeleiras, simulações de episódios da Guerra das Estrelas e davam...novas roupagens às músicas pimba (e às músicas comerciais). Está bem que a cerveja ajuda, mas aquilo até nem foi nada mau. Ou, pelo menos, bem melhor que as três primeiras músicas do espectáculo do Bruno e da Manuela.

Já estava eu a pensar no porquê  de não estar a ver o Ronaldo a marcar três aos suecos e a lixar as vendas à Pepsi, quando o Bruno e a Manuela dão genialmente a volta ao texto (ou à pauta). As interpretações das músicas foram ganhando sentido (musical e estético) e tornou-se num espectáculo bastante agradável. Valeu o bilhete. Interpretações de músicas de Graciano Saga, Marco Paulo, Quim Barreiros ou Leonel Nunes (que o Bruno confidenciou não conhecer antes desta experiência, o que é lamentável) mostraram todo o nível do Bruno, enquanto "cantactor", e de Manuela Azevedo, enquanto cantora.

Dizia-me uma amiga à saída do espectáculo que nunca esperou ver Manuela Azevedo a cantar “Bonito, bonito, é ver os tomates a bater no pito”. Eu respondi: “Bem, o H2Homem também não tem uma letra brilhante”. A voz de Manuela é brutal, o que se evidenciou quando cantou num estilo jazz, a solo, o “Não És Homem Para Mim” da Romana – número já feito vezes sem conta pela Luísa Sobral.

Houve ainda bombons no espectáculo como um pequeno número do Markl, bem geek como só ele sabe, e uma música cantada pelo Marante. Por tudo isto, o Bruno e a Manuela conseguiram bater o Quimbé e o Rubim.