terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Eu, hipócrita, me confesso: A praxe sob o teorema de Moutinho

























Ponto prévio: Fui praxado e praxei. Tinha 18 anos, nunca humilhei ninguém nem nada que se pareça, mas sinto vergonha de ter feito parte dessa instituição saloio-repressiva que é a praxe. Não sou anti-praxe, mas não consigo - mais de nove anos depois de ter sido "doutor" - ser a favor da praxe, nem tão pouco gostar dela.

Por muito que alimentasse o meu ego de puto-estúpido ter cerca de 40 pessoas às minhas ordens, direito que ganhei pelo mérito (pasme-se) de ter entrado na universidade um ano antes dos caloiros, não consigo gostar de ter feito parte dessa organização bafienta que até mantém o uso da Língua morta (o Latim subsiste, curiosamente, na praxe e no Vaticano).

Eu acreditava que as pessoas eram livres de dizer que não às minhas ordens, mas nem um santo acredita que não há ali - ainda que ao de leve e na mais inofensiva e bem intencionada das praxes - resquícios de coação psicológica.

Tenho orgulho de, em editorial do jornal A CABRA, perto do final de um ano académico, ter criticado o Dux de Coimbra (hoje é o mesmo), bem como o Conselho de Veteranos e a hierarquia assente na asnidade. Já aí, felizmente, por força da maturidade, a Razão começava a sobrepor-se ao Carneirismo acéfalo.

Cresci e hoje não acho mesmo piada nenhuma à praxe. Venham os meus colegas de curso dizer que em Coimbra, blá,blá,blá a Praxe é fixe. Não posso concordar que uma pessoa, num país livre, numa cidade com uma tradição democrática como Coimbra, tenha de estar em casa às 00h01 para não ser violentado por uma trupe de cobardolas de cara tapada. É inadmissível. E não me venham dizer que há a hipótese de dizer que não somos pela praxe, porque (no caso das trupes) não é verdade.
Pois é, eu venho dizer isto de barriguinha cheia depois de ter praxado, daí ser um hipócrita. Mas não conseguia guardar mais este rancor à praxe. Hoje, cara praxe, ajustamos contas.

Eu pensava que estava a fazer bem quando mandei os meus "subordinados" insultar as meninas de Direito, a dizerem que viram as mães dos tipos de Farmácia e de Medicina no Sexy Hot e a imitarem os D-ZRT. Mas, hoje, sei que era muito melhor estarmos todos, doutores e caloiros, como iguais que éramos, a conversar em tertúlia no Couraça, no TAGV, nas amarelas ou noutro sítio qualquer. Dir-me-ão que não fiz nada de mal. É verdade. Mas perguntem a um chefe da repartição de finanças da Alemanha em 1940 se ele (mesmo sem ser nazi nem ter feito nada de mal a não ser cobrar impostos) se se sente orgulhoso de feito parte - ainda que ao de leve - daquele todo. Duvido.

Atenção: Não estou a comparar a praxe ao nazismo. Volto a dizer que não sou anti-praxe, porque há bons exemplos de comissões de boas-vindas, que servem, realmente, para integrar (Veja-se os bons exemplos dos grupos de voluntários que recebem, orientam e integram os Erasmus...). Não é possível acabar com a praxe. Mas é possível mudá-la. A praxe (também) tem coisas boas.

A praxe, com os tentáculos que tem hoje, está para o ensino superior como o João Moutinho estava para o Sporting de Bettencourt e Paulo Sérgio. É uma maçã podre. Ou como muito bem cantou Sérgio Godinho: uma maçã com bicho.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Vanuatu significa felicidade



Há umas semanas propus uma viagem ao Palau. Desta vez vamos até ao Vanuatu, um pouco mais a Sul. Confesso a minha atração pelas terras destas latitudes. Talvez os nomes algo engraçados sejam um fator de peso. Seguindo esta ordem de ideias, Tuvalu também seria um bom destino e não é muito longe do Vanuatu. Mas fiquemo-nos agora pelo Vanuatu, que foi descoberto por um português.


 Foto: http://vanuatu.travel

Pedro Fernandes de Queirós, marinheiro nascido em terra onde não há mar (Évora), foi o primeiro navegador a avistar as várias ilhas do atual Vanuatu em 1606. Na altura, o português pensava que era parte de um continente do sul, a atual Austrália. Há mesmo quem diga que foi ele que esteve na origem da palavra “Austrália” por assim ter chamado às ilhas do Vanuatu. Se quiserem procurar na internet mais informações sobre este descobridor, podem usar igualmente as palavras “Pedro Fernandez de Quiros” que em vários sites o designam. 

O Vanuatu só viria a ser um país independente em 1980, com a "Guerra do Coco" metida ao barulho. Este episódio é tão bizarro que vou deixar a vossa curiosidade procurá-lo na internet. Há mesmo o livro "The Coconut War: Vanuatu and the Struggle for Independence", do jornalista Richard Shears. 

 Foto: http://vanuatu.travel

Depois disto acho que nem precisava, mas falo das paisagens de cortar a respiração, das atividades aquáticas e subaquáticas, dos vulcões (duas placas tectónicas chocam aqui e os vulcões oferecem histórias incríveis como a da erupção que partiu uma das ilhas a meio), ou até das visitas às tribos.  

Sim, pode parecer um pouco bizarro, mas há visitas turísticas em que se podem assistir aos rituais das tribos, e que incluem demonstrações de magia. Desculpem, mas isto mexe bastante com a minha imaginação. Só consigo pensar em caldeirões fumegantes e danças tribais com fatiotas bastante coloridas. O site turístico oficial do país oferece algumas viagens mentais ao cenário http://vanuatu.travel/


 Foto: http://vanuatu.travel



A verdade é que nunca lá fui. E é por isso que invejo de certa forma Susana Vieira Ramos. Não só esteve lá, como está agora a fazer uma exposição fotográfica com o título “Pikinini do Vanuatu – ao encontro da felicidade”, de 5 a 26 de fevereiro na Casa Municipal da Juventude de Aveiro. “Pikinini significa «crianças» em bichlamar, uma das línguas veiculares e oficiais do Vanuatu, a par do inglês e do francês”, pode ler-se no comunicado de imprensa que recebi recentemente.

Tenho que dizer em abono da verdade que não a conheço, muito menos o seu trabalho. Mas, só por ter estado no Vanuatu entre 2010 e 2012 e fazer uma exposição fotográfica com este título sonoro sobre as crianças deste pobre país, é digna da minha admiração. Apesar da pobreza, o Vanuatu será um dos locais mais felizes do mundo, segundo o Happy Planet Index. Esta mostra de 50 fotografias de Susana Vieira Ramos pretende partilhar a felicidade que esta jovem emigrante portuguesa encontrou do outro lado do mundo.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

10 provas do Ecletismo artístico do Sporting

Da Literatura ao Cinema, passando pela escultura ou o Teatro, são várias as referências culturais ao Sporting. De fora ficaram, naturalmente, as músicas da Juve Leo e das restantes claques, a marcha da Maria José Valério ou o "Cantinho do Morais" da Margarida Amaral. Não que eu as ache menos bonitas que estas obras artísticas, mas porque a ideia era identificar referências culturais que não fossem diretamente dirigidas ao clube, como são os hinos ou os cânticos de claque.

Escolhi dez exemplos que mostram que, até enquanto referência cultural, o Sporting é eclético. É fonte de inspiração de rappers, é História do Cinema,  é ornamento literário de autores premiados (Nobel incluído), tema de cronistas e filósofos. Enfim, o Sporting é tudo. Podem dizer que o Benfica também tem o Movimento Perpétuo Associativo, dos Deolinda, o Zorro, do Represas, o poema do Manuel Alegre sobre o Eusébio ou o telefilme da SIC "Lampião da Estrela". Mas com este ecletismo que vos apresento, só mesmo o Sporting. O Lobo Antunes (benfiquista, tal como Saramago) pode ter uma frase no Museu Cosme Damião e a Joana Vasconcelos fazer esculturas e afins para o museu BMG FC Porto, mas se a Arte fosse uma modalidade desportiva - como em mais de 90% das restantes - o Sporting seria o maior. E o melhor.



1. Em “O Teu Rosto será o último
de João Ricardo Pedro:


Num excerto do romance que ganhou o prémio Leya em 2011, pode ler-se:

“O mais certo seria Duarte responder que não tinha um grande sonho, mas dois: o Sporting ganhar a taça dos campeões europeus, e o Índio ser reconhecido, um dia, como o maior artista do seu tempo”






2. Em “O Leão da Estrela”, filme de Artur Duarte de 1947

O protagonista Anastácio (António Silva) é um fanático adepto do Sporting.
Uma das cenas marcantes do filme é o festejo de um golo do Sporting, num jogo contra o Futebol Clube do Porto:



3. Em “A Noite”, peça de teatro da autoria de José Saramago


Pinto, o redactor desportivo, comenta:

- O Sporting ontem lá ganhou, hã? Quatro secos à Académica!





 4. Em "Os sítios sem resposta", romance de Joel Neto

São várias as referências ao Sporting ao longo do livro, uma vez que trata-se de um adepto do Sporting que muda de clube, passando a ser do Carnide.


“- Que se lixe. Um homem muda de mulher, muda de partido, muda de religião, muda de tudo aquilo que quiser, até de sexo, mas de clube é que não muda nunca. Portanto, viva o Sporting!





5. No "Madagáscar 2", versão portuguesa















O leão Alex (na voz de Pedro Laginha) vira-se para os pequenos leões e diz:

“Vamos lá meus sportinguistazinhos!”


6. Em A Pré-História da Minha Ida ao Futebol, crónica de Eduardo Prado Coelho


"Nunca escondi essa característica da minha personalidade que é ter nascido sportinguista. Para falar verdade, não sei o que isto significa ao certo. Não consigo descobrir se se trata de um imperativo do destino, se de uma decisão racional (mas que racionalidade poderá existir aqui?). Sei apenas que sofro absurdamente quando o Sporting está a perder e que partilho a alegria de todas as vitórias, mesmo que seja sobre um clube da III Divisão: ganharam 4 a zero? São os melhores." 


7. Em "Baza Correr com o Paulo Bento", do rapper Valete

“Eu sou sportinguista de compromisso tácito
Coração verde e branco às riscas como um fanático
Vi o Sporting com mística, vi o Sporting apático
Chorei fracassos e conquistas desde Jordão a Sá Pinto





8. Em A Festa do Avante, crónica de Miguel Esteves Cardoso

"Espero que não se ofendam os sportinguistas e comunistas quando eu disser que estar na Festa do Avante! Foi como assistir à festa de rua quando o Sporting ganhou o campeonato. Até aí eu tinha a ideia, como sábio benfiquista, que os sportinguistas eram uma minúscula agremiação de queques em que um dos requisitos fundamentais era não gostar muito de futebol.

Quando vi as multidões de sportinguistas a festejar – de todas as classes, cores e qualidades de camisolas -, fiquei tão espantado que ainda levei uns minutos a ficar profundamente deprimido."



9. Em "Considerações” do ensaísta e filósofo Agostinho da Silva

Para o que ama o Sporting e a Verdade não há descanso nem termo, porque o/a vê no próprio caminhar, o surpreende no esforço contínuo da marcha; o Sporting e a Verdade não são um desejo de chegar, mas o anseio de superar.
Não me importa o resultado, mas o método.”

10. Em Estátua do Marquês de Pombal, de Francisco dos Santos

Francisco dos Santos, autor da estátua do Marquês de Pombal, foi jogador e dirigente do Sporting. António Couto, um dos projetistas da estátua do Marquês, terá confessado que o facto de ambos serem sportinguistas pesou na escolha de um leão como figura de adorno de Sebastião José de Carvalho e Melo. Não deixa de ser estranho que o Benfica queira ali festejar o título.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Ru(i)nning Project I: Hola, nuestros hermanos

The difficult is not to reach the end
The difficult is to start





Objetivo: Moscovo. Comecei a correr na segunda metade de 2013, de forma irregular. Nuns meses mais intenso, noutros menos. Tenho um aparelho que faz as contas por mim e que me diz que, até ao momento, já percorri 324,64km (dos quais 85 km no último mês – mais de ¼ do que fiz em todos os anteriores).

Escrevo este post para dizer que, segundo o Google Maps, cheguei há poucos dias a Espanha, uma vez que não segui o percurso mais fácil, por Badajoz (para resistir aos caramelos), mas passei a fronteira via Vilar Formoso. O grande objetivo para 2014 é percorrer, até ao final do ano, um total de 1000 quilómetros. Se conseguir, chegarei ao acumulado de 1248 km, o que significa que ficarei a cerca de 400 quilómetros de Paris e já terei passado por Bordéus.



Já terei mais de 30 anos quando chegar à Russia, mas o objetivo é mesmo chegar às torres do Kremlin, em Moscovo (mais de 4400 km de distância). É importante que se perceba que, no Ruinning, o percurso pela Europa é fictício. Corro, basicamente, sempre nos mesmos sítios: na ciclovia que começa nos tibunais cíveis em Lisboa e vai até Monsanto e na pista da marginal, entre o Cais de Sodré e Belém. Mas é engraçado medir as distâncias das corridas e ver a que avanços correspondem no mapa da Europa. É uma espécie de auto-motivação. Desafio todos a fazerem o mesmo, basta descarregarem uma aplicação de corrida gratuita e depois fazer as contas no Google Maps.

No Ruinning não tenho nenhum objetivo de apoiar a seleção (embora conte “chegar” a Moscovo antes do Mundial de 2018), nem de dar um euro por cada quilómetro percorrido para uma instituição de caridade (não tenho sponsor para isso). É apenas um desafio a mim mesmo, numa modalidade que chamo o Ruinninig (Epistemologicamente falando: Rui + running).














Estou neste momento a passar por Ciudad Rodrigo, na província de Salamanca. Diz o site do turismo espanhol que a cidade tem um castelo e uma catedral muito bonitos. Mais logo, na minha corrida noturna, quando sentir aquela brisa do Tejo, vou fechar os olhos e tentar imaginar que corro por Ciudad Rodrigo. Pensando bem, não é lá grande troca.

Lá para março, quando chegar a Salamanca, colocarei aqui outro post. Farei também questão de contar as peripécias desta minha aventura, sempre que se justifique. Até porque, naturalmente, vou fazendo provas oficiais pelo caminho. Ready, Set, Go!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Já não há cromos como antigamente


Lembram-se de um certo 'bolo' com recheio de chocolate, cujo nome começa em  "Bol" e termina em "cao"? Pois esta semana estava em promoção no supermercado e decidi comprar para recordar os meus tempos de infância/adolescência. Pois bem, tive uma decepção. Não com o sabor, que continua o mesmo, mas com a falta do cromo.

Sim, o cromo, aquele objecto que tantas alegrias infantis me deu quando o encontrava nas embalagens destes 'bolos' ou nos pacotes de batatas fritas. Era um dois em um. Recordo a expectativa e a ansiedade em ver que cromo me tinha calhado! Quer fosse aquele que procurava para completar a colecção, quer fosse um repetido que depois podia trocar com um amigo, era uma festa de cada vez que abria as embalagens ou pacotes.

E foi exactamente essa expectativa que voltou a apoderar-se de mim esta semana com a minha compra. Na fila da caixa do supermercado entretia-me a pensar que cromos estariam naquele pacote, que iria actualizar-me quanto às novas tendências dos cromos! Só que tudo isto só aumentou a minha desilusão ao ver em casa que afinal já não há cromos nestas embalagens, como já não há nos pacotes de batatas fritas.

Por isso, lembrei-me que ainda guardo uma caixa com cromos antigos e decidi revê-los. Aqui estão duas fotos para recordar como nos anos 1980/90 coleccionar cromos destas embalagens e pacotes era uma verdadeira devoção.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um dia havemos de ir ao Palau

A vida só é bem aproveitada se tivermos objectivos bem definidos. O meu grande objectivo de vida é ir ao Palau. Poderei fazer a minha viagem de sonho à Índia, mas nada se comparará ao Palau (e desculpem se prefiro dizer “ao Palau” em vez de “a Palau”).

Nada pode bater um país onde os habitantes se apresentam como construtores exímios de canoas – já que a subida do nível das águas do mar os ameaça cada vez mais, essa arte é capaz de dar jeito, digo eu.

Em segundo lugar, ter o búzio marinho como um dos instrumentos musicais típicos do país é no mínimo invulgar – devem estar a pensar que cá em Portugal também há disso, mas continuo a achar que não tem comparação, que é como comparar um pastel de nata da China a um pastel de nata de Portugal (aviso já que os pastéis de nata chineses são pouco doces e esbranquiçados demais).
Foto: Thor Vaz de Leon/Lonely Planet Photographer
A esta hora já várias pessoas deixaram de lado este post do nosso querido Quejo Trivial para ir ao Google procurar fotos das praias do Palau, já estão a sonhar com o clima tropical, a ver receitas com batata doce e mandioca, a rirem-se porque o país tem um dia dos jovens e outro dos idosos, ou então estão a avaliar o consumo de canábis no pequeno território.

Enquanto isso eu podia falar da História, da democracia ou das finanças do país. Mas não me apetece. Simplesmente porque, enquanto isso, eu fui pela milésima vez visitar o site oficial do Palau e já estou a sonhar, planeando a melhor e mais barata forma de voar para o arquipélago da Oceânia. E a pensar que talvez seja uma boa ideia fazer mergulho enquanto por lá estiver e que não posso esquecer a máquina fotográfica para imortalizar em alta definição os pássaros e as flores exóticas.

Há quem diga que alguns pontos do arquipélago são o princípio de tudo. E poderia lá ser de outra maneira num sítio onde os habitantes adoram acrónimos e os colocam por toda a parte em letreiros como “WAVE - Welcome All Visitors Enthusiastically” ou “STARS - Start Treating Alcohol Related Symptoms”?

Confesso que o que mais me fascina é a diferença horária em relação a Portugal, a distância, a dimensão do território. E que o que mais temo é que as ilhas desapareçam com a subida do nível do mar ainda antes de eu ir lá. A Amália Rodrigues cantava que um dia havemos de ir a Viana. A Viana do Castelo eu já fui. Ao Palau é que não. Mas hei-de ir.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Gatos, ratos, veados e minaretes

















Para começar, um bocadinho de poesia, em homenagem a um livro do Manuel Alegre, que por acaso é prosa, mas dá pelo nome de “Cão como nós”. Cá vai:

Five cats is to much
One mouse too
Policies like that
Should be at the Zoo


Portugal está cada vez mais próximo dos Estados Unidos e não é só na dívida brutal, nem por culpa de potenciais transbordos de armas químicas, mas sim por propostas bizarras, oriundas de órgãos de soberania. Eu sei que é difícil chegarmos ao nível de "bizarrice" dos EUA: É preciso lembrar que no Alabama é proibido andar com gelados no bolso; Na Califórnia não se pode andar de bicicleta dentro de uma piscina; no Hawai não se pode carregar moedas na orelha; No Texas os jovens não podem ter cortes de cabelo alternativos; No Delaware são proíbidas as calças de cintura apertada; No Arizona é proíbido aos cidadãos terem mais de dois dildos em casa; No Wiscosin os restaurantes estão proibídos de vender torta de maçã sem queijo; Entre outras.

Não chegamos aos calcanhares do Tio Sam, mas estamos a esmerar-nos para isso, como demonstram os últimos meses. Talvez a proposta que mais se aproxime dos norte-americanos seja a de cadastrar os pais fumadores. Mas vamos à poesia e aos gatos (com promessa de não haver referência à Autobiografia Sumária de Adília Lopes). Comecemos pelo primeiro verso:  Five cats is to much. É verdade: houve uma proposta do Ministério da Agricultura que pretendia limitar o número máximo de animais domésticos a 2 cães e 4 gatos. A proposta veio de um ministério CDS, mas isso não impediu o deputado do CDS de considerar a proposta de “fascismo higiénico”.

Há dias o ridículo voltou a surgir em forma de proposta, mas pela mão de um rato. O procurador João Rato – a pedido da Procuradoria Geral da República –  foi o autor de um relatório que propunha a realização de escutas a jornalistas, juízes e magistrados para combater as violações do segredo de justiça. Ou seja, mandava-se a água do banho fora com o menino lá dentro. O menino era a democracia, que seria sacrificada devido à incompetência do próprio Ministério Público em manter os seus processos confidenciais.

Por último, os veados. Sim. Falo-vos da proposta de referendo à adoção e co-adoção por parte de casais homossexuais. Calma. Alcamem aí os ímpetos arco-íris e não me acusem já de homofobia. Odeio a palavra “veado” para definir um homossexual ou qualquer outra que tenha um sentido ofensivo ou insultuoso (No filme Declaro-vos marido e...marido parece que "picolho" é bem pior). O que eu acho é que o referendo à adoção e co-adoção é o mesmo que chamar “veado” a um homossexual. É insultuoso, vulgar, retrógrado, reacionário e ofensivo.
A proposta de referendo hoje aprovada no Parlamento entra para o anedotário nacional. Para já, porque é uma hipocrisia em si mesma, quando neste momento, na prática, já existe adoção e co-adoção homossexual. Um pai homossexual que tenha a guarda de um filho, pode viver e casar com outro homem. Não há nada que o proíba. Há é uma falta de consagração de direitos de um progenitor sobre um filho em caso de separação ou falecimento do companheiro. O que é inadmissível.

Nos próximos meses não faltarão os profetas da desgraça ao estilo Fox News a alertarem para todos os males que a adoção por casais homossexuais pode ter. Aposto que vai haver estudos "científicos" e tudo. Mas o amor não tem género ou orientação sexual e se a adoção e a co-adoção forem chumbadas em referendo, o País anda uns anos para trás. É uma “vergonha”, como se gritou nas galerias.

Já para não falar dos milhões que se vão gastar com o referendo, falando em bom troikês. A adoção por casais homossexuais devia ser votada na Assembleia da República. A atual maioria obriga-me aqui a chegar ao ponto de citar Sócrates, o político: “Às vezes uma maioria tem de defender os direitos de uma minoria”. Hoje pôs-se um assunto sério na mão da democracia participativa, onde proliferam episódios vergonhosos, como a proibição de minaretes na Suíça. O povo tem a palavra. Veremos como decide. Veremos como decidem aqueles que andaram a partilhar fotos do Mandela nas redes sociais com letras de WordArt por cima. Não me importo que, por defender isto, me chamem veado. Não tem mal. Antes cervo em nome da evolução dos costumes, do que servo dos costumes.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Amanhã (hoje) há Óscares

Porque ainda não vimos grande parte dos filmes que amanhã podem ser nomeados, vamos às futilidades: nós por aqui apreciávamos que os Óscares tivessem uma categoria de Melhor Beijo, à la MTV. Em vez pôr o James Franco e a Anne Hathaway a apresentar para conquistar a geração 'reality-MTV', deviam importar categorias. E escolher outras canções.


Nós somos fãs dos clássicos, como podem ver pela montagem (Oooooo it takes a montage). E vocês?

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Insólitos rolezinhos

O ser humano é uma surpresa e o mundo também não pára (sim Acordo Ortográfico, continuo a escrever "pára" com acento!!!) de nos surpreender:

Depois de em outubro de 2013 a Câmara Municipal de Madrid ter anunciado que os músicos de rua eram obrigados a fazer uma prova que lhes permitisse tocar nas ruas da capital espanhola;

Depois de em novembro de 2013 as crianças da localidade espanhola de Picón, Ciudad Real, terem sido obrigadas a pedir autorização à Câmara Municipal para poder brincar na rua (andar de bicicleta, andar de patins, jogar à bola com os vizinhos passa a poder dar multa);

Depois de na semana passada, uma escola cabo-verdiana de São Vicente ter proibido aos alunos o uso de mini-saias e calças de fundo baixo;

Depois de na semana passada se ter ficado a saber que uma das práticas de guerra na República Centro-Africana é o canibalismo;

Depois de no final da semana passada a cidade italiana de Nápoles ter anunciado que quer identificar as fezes de cão nas ruas para multar os seus donos;

Há um assunto importante que quero destacar (não quero dizer que os outros não sejam importantes, mas alerto para este pela dimensão que está a tomar e pela repetição deste fenómeno tão próximo do Mundial de futebol do Brasil).

No sábado passado, os jovens da periferia de São Paulo (jovens pobres, entenda-se) marcaram mais um “rolezinho” e voltou a haver confusão com a polícia. Para quem nunca ouviu falar, um “rolezinho” é um encontro que jovens suburbanos marcam através das redes sociais em centros comerciais. Eles encontram-se para falar, ouvir música, arranjar namorado/a, passear no centro comercial.

Qual é o problema disto? Chegam a juntar-se centenas ou milhares de jovens em centros comerciais onde a classe média estava habituada a reinar e a fazer tranquilamente as suas compras (como aconteceu antes do Natal).

Volto a perguntar qual é o problema disto? A polícia intervém e usa gás e balas de borracha, como aconteceu no sábado. Os lojistas fecham as lojas com medo de saques. O centro comercial acaba por fechar a meio da tarde.

A justiça até tinha determinado multas para quem participasse neste encontro, após os furtos que se verificaram em dezembro. Mas isso não impediu os jovens de se encontrarem. E, apesar do músculo demonstrado pela polícia, não há registo de furtos nem feridos e o centro comercial reabriu ao final da tarde.

Houve mesmo queixas de outros jovens que não faziam parte deste “rolezinho” mas que estavam no centro comercial por acaso e dizem ter sido agredidos pela polícia.

Resumindo, o objetivo dos “rolezinhos” é o convívio, mas as autoridades parecem estar a recear a dimensão que estão a ganhar, porque o Mundial de futebol está quase à porta.

Não se percebe é se esta situação ganha os contornos que tem porque a polícia a isso incentiva com a sua atuação, ou se são os contornos que a situação tem ganhado que leva a polícia a atuar. Ou então percebe-se: as autoridades brasileiras é que estão com dificuldades em lidar com os “rolezinhos”…

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

20 coisas que caracterizam um jornalista português

Confesso que não gosto muito de listas. Nem de listas de compras, nem de listas históricas (veja-se o Index, por exemplo, e valha-nos a valentia de Schindler e Aristides para não ser tudo mau), nem de listas de riqueza (sorry Forbes), nem de listas de despedimentos. Há uns tempos, porém, aprendi a gostar de listas mais inofensivas (o melhor jogador, o melhor golo, as melhores gafes de Bush, as mulheres do Tiger Woods, o país com maior índice de felicidade, etc). Há ainda as listas do Buzzfeed, que até já inspiraram um post anterior.

O Buzzfeed é tão inspirador que estou a profissionalizar-me em listas deste género e agora até já ando a roubar gifs do Tumblr só para dar um maior colorido estético à enumeração. O tema que vos trago hoje é relativo à profissão dos seis autores do blog: todos jornalistas. Depois da NewCastic eleger as "30 coisas que "stressam" os jornalistas" e do inevitável Buzzfeed ter eleito as "23 coisas que os jornalistas adoram" (tradução livre) e as "22 coisas que os jornalistas sabem ser verdade" (tradução livre) decidi avançar para uma nova lista: "As 20 coisas que caracterizam um jornalista português". É, basicamente, uma "tuga version" das listas anteriores, com (muitos) toques de portugalidade. A lista não pretende ofender ninguém, nem ser uma verdade absoluta (até porque excluiu importantes virtudes e qualidades profissionais, éticas e deontológicas dos jornalistas portugueses), mas se alguém a puser nas mãos do grupo dos jornalistas do Facebook tem tudo para ser mais incendiária que o Index (repararam na piada assente no binómio incendiária/livros na fogueira?).

Enfim, é por os meus textos serem tão chatos que prefiro oferecer-vos listas. Aqui estão as 20 coisas que definem um jornalista português:

1. Odeia transcrever entrevistas



2. Diz várias asneiras na redação



3. Já se sentiu desiludido com a classe após ler  posts do grupo "Jornalistas" no Facebook



4. Já foi, pelo menos uma vez,
a um destes locais





5. Já teve Termo de Identidade e Residência




6. Esquece a imparcialidade quando
entra em campo a Selecção Nacional



7. É viciado em café




8. Odeia que repórteres de
programas
de entretenimento
sejam confundidos com jornalistas




9. Irrita-se com comentários
feitos pelos leitores online




10. Já deu pelo menos uma notícia
sobre o processo Casa Pia

















11. Tem um carinho especial,
quase paternal, em relação a Timor




12. Gosta de ver a série 'Newsroom'




13. Ri-se de algumas atitudes dos
camaradas de profissão




14. Já se viu obrigado a levantar a voz
para responder a um assessor ou a um
político desagradado com uma notícia




15. Já se sentiu revoltado por ser
obrigado a participar numa conferência
de imprensa sem direito a perguntas




16. Raramente utiliza a carteira
profissional






















(A não ser que trabalhe na AR...)

17. Já perdeu um texto porque
o Milenium bloqueou






















18. Raramente leva os estagiários a sério.


















19. Já pensou pelo menos uma vez:

Jornalista de imprensa: "Porque é que os jornalistas da TV se metem à nossa frente como se fôssemos invisíveis?"


Jornalista de rádio: Porque é que os tipos da TV passam à nossa frente e os de imprensa nos empurram pelas costas?  

 

Jornalista de televisão: "Porque é que os tipos da rádio não saem dos nossos planos e os de imprensa têm de nos estar aqui a chatear se só vão escrever isto para amanhã?"













20. Irrita-se com os assessores
que abusivamente os tratam
como se fosse
m amigos